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Charles Peter Tilbery
Maria Fernanda Mendes

A Esclerose Múltipla (EM) é uma doença neurológica crônica, de caráter desmielinizante, que acomete o Sistema Nervoso Central (SNC). Ela acomete adultos jovens, entre os 20 e 50 anos, embora possa ocorrer em crianças e em indivíduos com faixa etária maiores, sendo mais freqüente em mulheres.Não é uma doença fatal e um grande numero de pacientes leva uma vida normal, porém seu caráter imprevisível e algumas vezes incapacitante interfere em diversos aspectos da vida do paciente. A EM tem características muito peculiares, que a diferencia das demais doenças neurológicas, como a disseminação no tempo e no espaço, isto é, diferentes sintomas podem aparecer simultaneamente em diferentes áreas do SNC e ocorrem diversas vezes ao longo do tempo. Os períodos onde há o aparecimento de novos sintomas ou piora já existente, chamamos de surtos, exacerbações ou ataques. Aqueles de estabilidade da doença, com sintomas residuais ou sem nenhuma manifestação neurológica são chamados de períodos de remissão ou estabilidade. Não é raro que as primeiras manifestações da doença não sejam reconhecidas. Isto ocorre, porque os sintomas que iniciam o quadro são muito variáveis e a forma de apresentação da doença não é constante, como será discutido mais adiante.Os fatores desencadeantes, como estresse emocional ou físico, processos infecciosos, perdas afetivas ou financeiras que muitas vezes antecedem os primeiros sintomas são freqüentemente confundidos com manifestações psíquicas, gerando confusão e dificuldades no diagnóstico. A incerteza frente ao diagnóstico é um fator que gera estresse, dúvidas e ansiedade, já que o intervalo médio entre aparecimento dos primeiros sintomas e sinais e o diagnóstico da doença é de aproximadamente quatro anos. Após o diagnóstico, o paciente se depara com a imprevisibilidade, que é uma das piores características da doença. Os períodos de piora dos sintomas e a evolução incerta, em associação às flutuações constantes, interferem de forma decisiva na vida destes pacientes.

E afinal, o que é Esclerose Múltipla?

O SNC consiste do cérebro, medula espinhal e nervos cranianos, como por exemplo, os nervos ópticos. Uma substância gordurosa e de aparência esbranquiçada chamada mielina, forma uma bainha que envolve e protege as fibras nervosas do SNC, tornando possível a rápida condução dos impulsos nervosos. Qualquer dano ou destruição a esta bainha interfere na transmissão do impulso nervoso, impedindo que as mensagens sejam enviadas da forma adequada. Devido ao aspecto da bainha de mielina, a EM é identificada como uma doença que acomete principalmente a substância branca.
Na EM a mielina é afetada em múltiplas regiões do SNC, ocorrendo inicialmente um processo inflamatório, que atrapalha a transmissão do impulso nervoso, causando os sintomas experimentados pelos portadores de EM. Estes sintomas podem desaparecer quando a inflamação é resolvida ou a bainha de mielina poderá ser afetada de forma definitiva, levando ao acumulo de um tecido cictricial enrijecido (esclerose). Estas regiões destruídas são chamadas de placas ou lesões, o que dá origem ao nome da doença – Esclerose Múltipla ou Esclerose em placas. Embora muitas destas lesões não causem sintomas visíveis, outras produzem os diversos sintomas observados na doença, interferindo nas funções ou sensações controladas na área especifica do SNC. Além disso, a interrupção dos estímulos nervosos podem interferir ou interromper a comunicação entre as diferentes partes do SNC, o que contribui para o aparecimento dos sintomas.

O que causa a Esclerose Múltipla?

A causa exata da EM é desconhecida, porém acredita-se que o dano à mielina seja resultante de uma resposta anormal do sistema imunológico do individuo, sendo considerada uma doença auto-imune. Em situação normal, o sistema imunológico é o responsável pela defesa do nosso corpo contra vírus, bactérias ou outras substâncias agressoras externas. Na EM o sistema imunológico não reconhece a mielina como sendo parte do corpo do individuo, e a ataca como se ela fosse um agente agressor. Embora os mecanismos imunológicos envolvidos no processo que leva a inflamação e eventualmente lesão da bainha de mielina sejam conhecidos, o que leva o sistema imunológico a ter este comportamento ainda é objeto de estudos. Aparentemente existem diversos fatores envolvidos no aparecimento da EM, como os fatores genéticos e ambientais, porém, as respostas não são definitivas.
É bem conhecida a interferência dos fatores genéticos para o aparecimento da EM, conforme demonstrado em inúmeros estudos. A composição étnica da população também é importante, sendo mais freqüente em indivíduos com ascendentes europeus, embora possa ocorrer em negros e asiáticos. Em outras etnias, como por exemplo, nos esquimós e índios maoris, a doença parece ser inexistente. Embora os estudos indiquem haver uma maior susceptibilidade individual, podemos afirmar que a EM não é transmitida dos pais para os filhos. Desta forma, pais com EM podem ter seus filhos normalmente. As mulheres devem sempre planejar a gravidez, sob orientação médica adequar os medicamentos que faz uso para este período da vida. Os aspectos genéticos da EM serão discutidos com maior detalhes em outro capítulo.
Dentre os fatores ambientais, além da distribuição geográfica – maior incidência nos paises do hemisfério norte – a exposição a vários agentes, sejam eles agentes infecciosos não específicos, alimentação, estresse físico ou psíquico, entre outros, também estão envolvidos no aparecimento da doença. Em alguns momentos e por motivos desconhecidos, a EM ocorre com mais freqüência em uma determinada região. Este fato ajuda os pesquisadores a compreenderem melhor a causa da EM, porém, até o momento, nenhum fator causal foi identificado e o significado disto ainda é desconhecido. Existe muita discussão sobre os fatores que contribuem para o aparecimento da doença ou para desencadear os períodos de surto ou exacerbação. Infelizmente, os dados não permitem conclusões definitivas, porém algumas causas tem sido discutidas:

Causa viral: Especula-se que o contato com alguns vírus pode ser base para o aparecimento da EM. Isto ocorre, pois é bem conhecido o fato que alguns vírus levam ao aparecimento de diversas doenças desmielinizantes em animais e seres humanos. Embora estudos epidemiológicos sugiram que o contato com agentes virais, como o do sarampo, rubéola e herpes, entre outros, possa estar envolvido no aparecimento da EM, não há ainda nenhum estudo que comprove a correlação entre vírus e a desmielinização observada na EM. A EM não é contagiosa e esta possível correlação com virose ou outras infecções afeta unicamente a pessoa com predisposição genética para EM.

Metais Pesados: Embora o envenenamento com metais pesados como o mercúrio, o manganês ou o chumbo cause danos ao SNC, levando a sintomas como tremor ou fraqueza, o tipo de lesão e a evolução da doença é completamente diferente da que observamos na EM. Embora seja referido por alguns, não há nada que comprove cientificamente que a amálgama colocada nas obturações dentárias seja uma das causa da EM.

Trauma: Os traumas como causa da EM ou fator desencadeante de surtos ou ataques tem sido objeto de controvérsias. Hoje é bem estabelecido que, o trauma não é um fator que colabore para o aparecimento da doença e não tem nenhuma relação com a presença de surtos, embora em função do acometimento neurológico os portadores de EM sofram mais traumas que a população em geral.

Alergias: Não existem evidencias que substancias que causem alergia em determinados indivíduos estejam envolvidos na causa da EM. Assim, não há base científica para tratamentos com substâncias antialérgicas na EM.

Vacinação: Embora seja um assunto muito controverso, até o momento não há base científica para que seja feita uma correlação entre vacinação e EM. Recentemente foi demonstrado que a vacinação para hepatite B não é fator desencadeante de EM nem causa exacerbação da mesma. Estudos demonstraram que a vacinação para hepatite B, sarampo, rubéola, tétano, influenza e varicela podem ser usados com segurança nos indivíduos com EM.

Dieta: Uma dieta balanceada é recomendável para todos os pacientes com doença crônicas, sendo indicada uma dieta rica em fibras e pobre em gorduras, porém, não há nenhum indicativo que determinadas dietas levem ao aparecimento da EM ou piora dos seus sintomas.

Estresse: Embora existam muitos estudos que verifiquem a possibilidade de uma correlação entre estresse e EM, os resultados são controversos. Em muitas citações, os eventos estressantes, como separação, morte de um familiar, entre outros ocorreram muitos anos antes do aparecimento da EM e em outros, num período imediatamente anterior. Acredita-se que o estresse possa afetar o momento em que os surtos ou exacerbações ocorrem, sem alterar o curso da doença, porém não há conclusões definitivas sobre este tema. Concluindo, a predisposição genética somada a exposição aos fatores ambientais na infância e adolescência leva ao desenvolvimento de uma situação que predispõe ao aparecimento da EM. A semelhança entre os agentes aos quais o individuo esteve exposto anteriormente com aqueles presentes no ambiente na sua idade adulta, irá desencadear toda uma reação imunológica com ativação do processo de EM. No SNC, esta reação é responsável pela reação inflamatória que agride a bainha de mielina, ocasionando o aparecimento dos sintomas. Embora muitas dúvidas persistam quanto a causa da EM, atualmente temos um grande conhecimento sobre a imunologia da doença, o que permitiu um grande avanço no desenvolvimento de tratamentos específicos, que retardam a progressão da mesma. Vários estudos vem sendo realizados para esclarecer esta questão, e com certeza em algum tempo teremos respostas concretas que permitirão a introdução de mais avanços no tratamento da EM.

Obras consultadas:
Helmut j.Bauer & Dietmar Seidel. Esclerose Multiple. Manual Practico.Fundacion Esclerosis Multiple.Barcelona, Espanha, 1996.
Rosalind C.Kalb.Esclorese Múltipla. Perguntas e Respostas. ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla. São Paulo, Brasil,2000.
Camilo Arrigada Rios & Jorge Nogales-Gaete. Esclerose Multiple.Uma Mirada Ibero-Panamericana. Arrynog Ediciones.Chile Santiago,2002.
Esclerose Multiple.Perguntas Y respuestas.Federacion Espanola para la lucha contra la Esclerosis Multiple.Madrid, Espanha.

Sites na internet para consulta:

www.nmss.org/

www.svt.es/fem

www.msif.org/nationa/national.asp

   
   
 
 
   
   
   


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